“Ele já aceitava aquela realidade, as coisas estavam mudando, não seriam mais as mesmas. O medo dessa mudança agora fazia parte de sua existência, tornou-se tão constante que já nem sabia se aquilo ainda era medo. Pensou: me acostumo com, me acostumo sem. – Olhou para o ‘cordão’ que saía de seu peito, forte e cheio de vida, atravessava matas, montes e mares até a outra ponta, onde estava o ser mais belo que conhecera em sua vida. Ele ponderou, e no fundo sabia que tudo valeria a pena, tinha decidido que a tesoura permaneceria guardada e que em sua ponta o ‘cordão’ seria mantido intacto por quantas voltas do ponteiro fossem necessárias.
Pensou: agora que te segurei nos meus próprios braços e senti a felicidade que isso traz a mim, não vou te deixar até que você o faça. – E continuou o mesmo que sempre foi. Até mesmo depois de conhecer, aprender e reconhecer, ele era o mesmo.
De cima da sacada, enquanto as pessoas passavam, ele lia aquele livro e em meio a tantos mistérios e surpresas, olhava para o ‘cordão’ e certificava-se de que ele continuava firme. Durante seus exercícios, entre uma série e outra, olhava para o ‘cordão’ e certificava-se de que ele continuava firme. A cada filme, conversa, risada, lágrima, tropeço, vitória, tédio ou diversão, a cada segundo de vida que se passava, ele fazia questão de manter o nó bem apertado.
Pensou: mas por que sou assim? Por que não deixo as coisas acontecerem sem me preocupar com tudo isso? Seria mais fácil, tão mais fácil! – Mas concluiu que isso ia contra a sua essência. Sim, ele podia ver a vida dele separadamente, e não era uma visão tão desesperadora, mas o fogo de sua vida era mais brilhante e quente com aquele cordão em si. Levantou-se de onde estava, fechou os olhos, limpou seu coração e enviou uma mensagem simples para a outra ponta do ‘cordão’:
‘Te amo! Fica comigo?’ – Uma exclamação e uma interrogação.
Pensou: depois de tanto ensinar e tanto aprender, depois das lágrimas e dos sorrisos, depois das festas, das bebedeiras, das pizzas, dos lanches, das tardes de domingo, das brigas sem motivo, das pazes com beijinho, dos encontros e desencontros, das tantas piadas sem graça, das horas de TV abraçadinhos, das melodias cantadas ao pé do ouvido, das declarações, dos móveis quebrados, das preocupações, dos momentos de orgulho, dos sustos e dos medos, das cócegas e deboches, dos tantos apelidos, dos cafunés, das massagens feitas e das negadas, dos passeios nos parques e nas ruas escuras, depois de tantas coisas que passamos juntos e por depois de tudo isso ainda haver tanto carinho, nós vamos resistir. – E ele voltou aos seus estudos. A tesoura intocada.”
ALEX STEINHORST
É um prazer inenarrável entrar nos blogs que eu sigo e encontrar textos originais de tanta qualidade quanto este! E viva a genialidade de blogueiros fantásticos como o Alex que tive o prazer de “conhecer”! ;)
Brenda Nepomuceno