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Quando eu digo que crescer e começar a trabalhar demais torna a minha escrita, e até mesmo a vontade de criá-la, em algo supérfluo, não estou mentindo. Eis uma mostra de todas as idéias brilhantes que eu tive nos meus momentos de lucidez – sim, aqueles “olha, eu bem que poderia escrever um post – ou uma página no meu diário – sobre isso!”:

“Honestamente, não vejo por que é que as pessoas têm que entrar em lojas e fazer a maior bagunça. Custa colocar o cabide de volta no lugar uma vez que você já tenha examinado minuciosamente aquela roupa que nem tinha intenção de comprar em primeiro lugar? Não entendo como é que se tira um cabide, olha a peça pendurada e, ao
invés de espelhar o movimento feito para tirá-la do meio da miríade de outros vestidos, dá uma volta de cento e oitenta graus e faz um esforço desnecessário para pendurá-lo do lado contrário. A incapacidade de notar que, se todos os outros pares de sapato estão voltados na direção da porta, este que você está segurando deveria ser semelhantemente devolvido àquela mesma posição, também me abisma.”

“Querida cama,

Ninguém no mundo me ama tanto quanto você. Após um longo dia de inúmeras perguntas de qual é o preço, se posso experimentar este modelo no tamanho trinta e sete ou se é assim mesmo que se pronuncia ‘antebraço’ em português, é você quem está de cobertas abertas para me receber e me aninhar. Eu te amo. Perdoe-me por todos os dias em que lhe a deixo desarrumada – muitas vezes eu tomo como certa a reciprocidade desse sentimento porque sei que, bagunçada ou não, ou seu conforto no final do dia será o mesmo.”

“Há muito tempo, ela não sentia aquele cheiro. Notas familiares com um resquício de nostalgia envolviam-na enquanto ela fechava os olhos. Desprovida de um sentido mais forte, se deliciava com o buquê potencializado que lhe adentrava as narinas e, por conseqüência, a alma. Todos os aromas se encontravam ali: o leve toque de plástico, a doçura do chiclete artificial, a promessa de pés confortáveis, a lembrança da terra natal e a certeza de um amanhã mais brasileiro mesmo em expatriação. Quando os olhos se abriram, após cinco minutos intensos de atestação olfativa, os olhos comprovaram: em suas mãos, depois de tantos anos, descansava uma Melissa que jamais fora usada.”

“Amor da minha vida, você é o amor da minha vida. Sabia? Eu te amo! E vou te amar a vida inteira!”

“O termo ‘precisar’ é relativo. Se usássemos a palavra de acordo com o significado puro da palavra, a vida como a conhecemos talvez nem sequer existisse. Afinal, quem é que precisa de mais do que um sapato, se for assim? E quem é que sequer precisaria de uma tiara, por exemplo? (Acessóriozinho muito inútil, não? Se bem que, sem ele, a célebre frase materna ‘e essa cabeça aí? Só serve pra usar tiara?’ nunca teria sido cunhada.) Se fôssemos honestos, ninguém precisa de nada. Bom, pelo menos não no mundo em que eu vivo. Mas eu quero mais um vestido, oras. É lindo, minha cara e vai ser uma ótima opção para o passeio planejado. Precisar eu não preciso, mas eu quero. E se eu tenho o dinheiro, por que não?”

Agora vocês vêem que não é à toa essa distância que tenho forçado entre eu mesma e qualquer tipo de papel. Até que minha avó tenha me mandado um poema de um tio escritor meu, inspirado numa correntinha com pingente de cruz que ele achou na rua, não vejo como a trivialidade (por mais deliciosa que ela seja!) do meu dia-a-dia de trabalhadora ambiciosa pode me ajudar com as reflexões da vida.

Entretanto, talvez – apenas talvez – a vida não seja feita só de palavras cuidadosamente trabalhadas…

Brenda Nepomuceno

P.S. Já em notícias reais, acabei de descobri que apareci em duas páginas do website da minha faculdade, fazendo propaganda dela. (De novo, eu sei – mas achei o máximo mesmo assim e queria compartilhar!) Se quiserem ver é só acessar Access Melbourne e clicar na minha foto ou Information sessions for high school parents. Ah! E eu também saí na brochura dada aos pais, para ajudá-los a decidirem que a Melbourne Uni é o melhor lugar para os filhos deles. (Há uma versão online em PDF aqui. A minha página é a onze.)