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Num dia comum, tão comum quanto qualquer um dos nossos dias extraordinários juntos consegue ser, estávamos fazendo compras. Quando paramos para um café e para descansar os pés, você falou sobre a minha escrita. Comentei sobre a minha mania de não dar nome a personagens e você falou sobre como os caracterizo pelas cores dos olhos. E reclamou, brincando, pelo fato de nenhum deles ter olhos castanhos - a cor dos seus. E é verdade, nenhum deles teve. Quer dizer, até agora.

Honesta e seriamente,  para mim é mais fácil atribuir azul ou verde às cores da íris porque elas são mais simples; não porque elas são mais bonitas. Qualquer pessoa que olhar nos seus será capaz  de concordar comigo. Há uma imensidão afável dentro deles que me deixa perdida por palavras. São só olhares. E sempre pra mim.

Acontece toda vez que você, o dos olhos castanhos, está feliz. Não são os seus dentes o que mais impressiona no seu sorriso. É todo o processo – do momento em que você ouve uma coisa engraçada e seus olhos puxam para cima as cordas dos cantos dos seus lábios, como uma marionete, até a fração de segundo em que o seu rosto inteiro se ilumina ao ouvir o meu som preferido no mundo inteiro; a sua risada. Seu sorriso começa no seu olhar.

E por mais que sinônimo de tristeza, também sou cativada cada vez que lágrimas escorrem. Diz você que elas não costumavam ser tão frequentes antes de mim. Ainda bem que agora elas dão o ar de sua graça nos nossos melhores momentos juntos. Só gosto das de alegria, que tornam seus olhos em piscinas profundas e repletas de satisfação. Pouco antes das primeiras lágrimas escorregarem pela borda, há sempre um brilho que pisca e que diz aos meus olhos verdes que você não trocaria aquele momento por nada no mundo. E eu não trocaria a cor dos seus olhos por nenhuma outra do arco-íris.

Às vezes tenho a impressão que o chocolate dentro deles se derrete e fica mais claro. É quando você fica mais vulnerável, brincalhão e à vontade. Tem sido quase o tempo todo, ultimamente, desde que passei a olhar dentro deles de mais de perto. Poder viver a poucos centímetros deles me garante assistir a cada detalhe das várias nuances do seu olhar sentada na primeira fileira. Por mais que variem, são sempre as mesmas. O seu olhar é constante; constantemente apaixonante… e apaixonado. Acho que eles se derretem é de amor por mim.

E o que é que sendo verde nessa vida consegue derreter e virar algo poeticamente romântico? Entende como o dos olhos castanhos é mais inspirador de um texto inteiro? Só uso os verdes e azuis para uma ou outra frase. Os seus carregam milhares de analogias dentro deles. E é por isso que eu nunca antes os havia utilizado numa caracterização. Precisei de oito meses olhando dentro dos seus olhos para só começar a entender a imensidão deles… e a do seu coração.

Brenda Nepomuceno