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Nela ele viu tudo o que faltava pro mundo poder parar de fazer sentido de uma vez, lapidando assim a sua arte. A beleza dela virava poesia em seu coração e nos seus diários, e ela bebia as palavras dele como alguém que, morando num deserto, encontrava um oásis pela primeira vez. E embora uma muralha de cuidado e proteção guardasse o amor dela, ele fez questão de arrancar pedra por pedra daquela fortaleza com cada rima sussurrada ao pé do ouvido tão atencioso que pertencia à garota.

Ela o inspirava, e ele se maravilhava com a nova dimensão que aquele amor proibido dava aos seus escritos. A cada lágrima derramada um novo verso era criado; a cada vez que o coração dele batia dolorosamente dentro da prisão que era o seu peito, uma nova estrofe manchava os papéis à sua cabeceira.

A musa não tinha nada de especial,  e se desfazia a cada poesia que ele sugava dela. A única coisa que a distinguia de todas as outras que sonhavam em inspirar os versos do poeta era a necessidade que ela tinha por um amor como constante de vida. E embora a métrica de cada poema dele fosse perfeita, ele escrevia sobre amor sem saber em fato como amar de verdade. No papel os sonhos eram mil, na imaginação um milhão, mas na realidade eles não passavam de uma poesia sem rimas. E com a visão já gasta por passar horas com os olhos fixos no papel, ele não conseguia enxergar, nem mesmo de óculos, que eles não teriam um futuro… pelo menos não juntos. Apesar de serem duas almas tão artisticamente românticas, foi da própria arte que se fez sua ruína.

Depois dos papéis terem sido rasgados, as poesias foram esquecidas, as rimas se silenciaram, as estrofes se separaram e viraram cada uma um poema unicamente distinto. Quando isso aconteceu, o amor à arte foi maior do que o amor entre eles. Àquela altura o poeta já havia deixado de extrair dela toda a inspiração possível sem lhe dar nada em troca. Com cartas e homenagens à sua musa, a inspiração que ele tirava dela a fez perceber o valor do que havia em seu coração, e ela se tornou uma escritora mais concentrada na prosa do que na poesia. Pra que rimar “tristeza” com “amor” quando as duas coisas claramente não têm a mesma sílaba final?

Por toda a sua vida, tudo o que ela queria era um amor real tão grande quanto o que ele tinha por palavras belamente combinadas. Por ela o poeta morreria, quando na verdade tudo o que ela queria era alguém que vivesse por ela.

Brenda Nepomuceno