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Todas as vezes que seu pai viajava para o exterior, geralmente a trabalho, ele sempre lhe trazia de volta um ursinho de pelúcia. Com o passar dos anos, a coleção foi aumentando e ela reservava aos bichinhos um lugar super especial em seu quarto. Sem razão aparente, entretanto, havia um que não permanecia na estante com seus outros companheiros internacionais – este ficava em cima da cama e dormia com ela todas as noites. Ou porque ele era parisiense, ou porque ele era fofo ou simplesmente porque ela se apaixonou perdidamente por ele no momento em que o viu, a verdade é que aquele era seu ursinho preferido, que ela sempre abraçava tentando pegar no sono.

Mesmo anos depois, já crescida, ela não largava do tal bichinho. Detestava dormir fora de casa, e nas raras vezes que concordava acabava levando-o consigo, escondido na bolsa, mesmo tendo vergonha de assumir que ainda precisava daquele ursinho pra ter uma boa noite de sono. Ele era especial. Mesmo anos depois, todo amassadinho e sem a beleza original, especialmente comparado ao seu gêmeo intacto que pertencia ao irmão dela, ela ainda o amava. Afinal de contas, aquele ursinho enxugara inúmeras lágrimas derramadas na calada da noite, compartilhara todos os segredos sussurrados na madrugada e era uma ligação permanente com o pai dela, que o escolhera na França e o trouxera pra casa, mesmo quando ele estava a alguns milhares de kilômetros de distância, trabalhando.

O tempo continuava a passar e ela finalmente chegou à idade de namorar. Durante os muitos meses de namoro, era aquele mesmo ursinho que contemplava o sorriso que ela tinha nos lábios todas as noites, quando pensava no namorado uma vez mais antes de mergulhar no mundo dos sonhos. O bichinho de pelúcia sabia que agora era com aquele rapaz que ela sonharia, na maior parte das noites, mas ainda assim se sentia grato por saber que era com ele que ela dormia abraçada.

Quando seu namorado a surpreendeu com um dia super romântico para comemorar o primeiro aniversário deles, um outro ursinho de pelúcia foi um dos presentes. (Afinal, um aniversário de namoro não poderia não ser o clichê perfeito sem um presente desses!) Sendo um rapaz tão legal, que a conhecia tão bem, não houve menção nenhuma a respeito do ursinho preferido, nem sobre como ela deveria substituí-lo por aquele exemplar mais novo. Este era, simplesmente, apenas mais um para a coleção. Entretanto, ela não via as coisas da mesma maneira. Era a primeira vez que ele lhe comprara um presente desses e parecia apenas lógico que o novo bichinho entrasse para sua coleção, mesmo sem ser de um outro país. Mas parecia estranho; ele parecia um intruso numa estante de ursinhos escolhidos a dedo pelo pai dela. A cama foi, então, a próxima opção. Mas como ela poderia trocar um pelo outro?

Por alguns dias, ela deixou o presente sentado em sua penteadeira, enquanto tentava encontrar uma solução para o problema. Pensava, pensava, pensava e chegava sempre à mesma conclusão: não poderia substituir seu companheiro de anos por um novo, mesmo que este representasse a nova fase de sua vida. Mas ao tentar ignorar o ursinho do namorado, o coração dela também não ficava satisfeito. “Poxa, ele teve todo o trabalho de escolhê-lo e eu acabei desprezando essa prova de carinho”, pensava. E foi só quando ela percebeu que tinha dois braços para abraçar enquanto pegava no sono que seu coração pôde ficar em paz. Ela aprendeu a dormir com os dois ursinhos – o novo e o velho; o do namorado e o do pai; o que simbolizava um novo começo e o que guardava todas as peças mais essenciais de seu passado. E foi só aí que ela aprendeu a lição que seu ursinho sempre quis lhe ensinar: mesmo as formas mais distintas de amor se comportam da mesma maneira – o amor não se divide; se multiplica - e no coração sempre há espaço pra mais um…

Brenda Nepomuceno