Tags

, , , , , ,

Naquele mundo futurista, as primeiras palavras de um bebê não eram mais “mamã” ou “papá”. Eles olhavam seus pais nos olhos, com uma expressão de quem está quase entendendo alguma coisa e soltavam: “eu ti amu”! A festa subseqüente feita pela família não era em função do conteúdo do que fora dito, mas pela conquista das primeiras palavras coerentes.

Não era preciso crescer quase nada pra entender que aquela frase pequenina era como dizer palavras mágicas: abria as portas de tudo e era bem-vinda em qualquer situação. Pela manhã, ao acordar: “eu te amo, mamãe”; mas até aí, nada anormal. À mesa do café: “passa o bolo pra mim, eu te amo?” Na escola, a professora: “eu te amo, João, nota dez!” Quando se era apresentado a alguém: “eu te amo, meu nome é Maria”. E na hora de cortar bolos de aniversário, então? Eis a canção: “Eu amo você, nesta data querida / Eu amo você, muitos anos de vida / É, eu amo! Eu amo, eu amo, eu amo! / É, você! Você, você, você! / Te-a-mo”. Nada mais de “bom dia”, de “por favor”, “muito bem”, “prazer em conhecê-lo” ou “parabéns” – e olha que essas nem eram todas as ocasiões em que eles falavam essa mesmíssima frase!

E foi naquele mundo futurista (mas não tão distante do nosso) que João cresceu, cercado por aquelas três palavras banais. Suas primeiras palavras quando bebê foram as mesmas que ele repetiria todas as manhãs, quando precisava de um favor, quando encorajava os outros ou quando ia a qualquer aniversário. Ao conhecer Maria, gostou imediatamente da bela voz com a qual ela lhe dizia o que a boa educação exigia. Aos poucos ficaram amigos e ele percebeu que a personalidade dela combinava com aquela voz, e todas as vezes ele se surpreendia com os novos aspectos que conhecia a respeito daquela garota.

Num dia qualquer, estavam os dois deitados na grama, encontrando formas nas nuvens do céu, como sempre faziam após a aula. Ele contou uma piada, ela riu, seus olhos se encontraram… e os corações também. João sentiu o seu palpitando de uma maneira nova e percebeu que se seu coração fosse uma pessoa, estaria pulando pra cima e pra baixo por causa… de algo muito parecido com a alegria, e qualquer forma de felicidade exigia que aquelas três palavras deixassem sua boca. Elas já estavam na metade do caminho pela língua dele quando Maria segurou sua mão e sussurrou com seus olhos que seu coração também pulava no ritmo daquele mesmo sentimento. Foi então que ele percebeu não ser nem o dia, hora ou local para aquela frase tão banal. Os dois ficaram quietos, ligados apenas pelas mãos e aquele olhar. E naquele mundo futurista onde o dizer o que se sente fôra tão encorajado a ponto de perder totalmente seu valor, o silêncio falou mais alto.

Brenda Nepomuceno
 Blorkutando, semana 74